“Mulheres de biquíni causam tumulto em posto de combustível”.
Típico do machismo e do estilo retrógrado que impera em Cascavel, a “Capital do
Oeste” que hoje ganhou destaque em rede nacional. O vídeo começa com homens e
mulheres gritando, chamando a atenção para o “absurdo” que acontecia ali.
Machismo e falta de respeito.
Vendo o vídeo, pareceu que meninas andarem de biquíni é uma aberração. No país da
bunda, homens e mulheres julgam-nas por terem ousado fazer o que ninguém faz.
De um lado, homens parecendo
lobos no cio. Como se nunca tivessem visto mulheres com o corpo à
mostra ou, ainda, como não se andassem por aí com panças e peitorais expostos. A mulher é dona de seu corpo e é triste ver em pleno século XXI, na “Metrópole do Futuro”, elas serem julgadas e
apedrejadas por moralistas que sequer se esforçam para entender a cena
ridícula a que colocaram as meninas. Do quanto agiram como animais.
De outro lado, mulheres sendo tão ou mais machistas
que os próprios homens. Um misto de conservadorismo hipócrita com recalque. Acostumadas
a cenas de sexo nas novelas e a ver bundas nos BBBs da vida, ver duas moças com
o corpo bonito andar de biquíni é atentado ao pudor.
Concordo que pode ter havido um
pouco de falta de bom senso das meninas ou até que elas realmente queriam
aparecer. Mas tenham certeza, não querem aparecer menos do que as moças que
pagam para serem fotografadas seminuas e postam as fotos nos Facebook e manda
as imagens para colunas sociais de jornais.
A leitura vai além do mero ato
delas terem entrado em um estabelecimento com roupas de banho. Mulheres não
podem mostrar o corpo, não podem usar shorts curtos porque são taxadas de
vadias. Curiosamente, muitas dessas pessoas que julgam as garotas, que dizem
que elas não merecem respeito, certamente são as mesmas que vão dominicalmente
às igrejas e reparam as vestimentas alheias.
Ocorre que a cena vista ali é um
caso extremo de como as mulheres são julgadas, desrespeitadas. De como os
moralistas de plantão estão prontos para apedrejar, dizerem que elas não merecem
respeito e, quiçá, caso uma delas fosse estuprada ela seria a “responsável”.
Já dizia minha avó: O que é de
gosto é regalo da vida. Mas para algumas pessoas, essa regra só vale para o
que convém.
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| http://catve.tv/noticia/6/72899/?fb_comment_id=fbc_202244249961675_409559_202268686625898#f3e57618f4 |

Dos vários pensamentos que me surgem sobre este fato:
ResponderExcluirVamos combinar né! Essas moças trouxeram à tona e, na contramão, o que é comum a todos: nas vantagens físicas que outros não tinham, aparece a inveja comum. No comportamento sensualizado, aparece a hipocrisia igualmente comum de sexualidades perturbadas que a atacam. Inveja-se aquilo que não se pode ser, ou o que se gostaria de ser. Inveja e ódio são afetos políticos que se manifestam em comum.
E mais lembrei-me de Theodor Adorno em Educação Após Auschwitz, que todos os nossos esforços como educadores deveriam se dar na direção de que Auschwitz não se repita. A repetição não cessa, pois, como disse o mesmo autor, o proscrito desperta o desejo de proscrever. As meninas não estão sendo atacado apenas por incorporar a estética da sensualidade e ter, por meio dela, se portado como uma “menina má”, provocando as pessoas que se dizem ingênuas e defensoras da “moral e bons costumes”. Não foi de modo algum a sensualidade fora de lugar o que provocou o gesto coletivo. A sensualidade constantemente perturba a cena cotidiana de uns e não a de outros. O incômodo é subjetivo. É, no entanto, o elo estreito entre sexualidade e poder acobertado em nossa cultura o que está em jogo.